Carta de desculpas à professora Waldevira
Há mais de 20 anos, fiz uma promessa que não conseguirei cumprir. Ou, pelo menos, não integralmente
Provavelmente você não se lembre, professora. Afinal, faz mais de 20 anos que eu fiz sua prova de Literatura do 3° ano sem ler o livro que seria o assunto principal. Chutei algumas questões, enrolei em outras e, envergonhado pelo risco de tirar nota baixa, escrevi um bilhete ao final:
”Professora Waldevira, peço desculpas por não ter lido o livro, mas é que estou estudando para vestibulares de outras cidades e tendo que ler vários outros livros. Por isso, não sobrou tempo para ler este livro da UFG. Mas o dia em que eu for um jornalista famoso, vou escrever um texto em minha coluna de um grande jornal em sua homenagem.”
Você então respondeu: “Está bem, mas promessa é dívida, hein!”
Wal, peço desculpas, mas não me tornei esse jornalista famoso. Então, não conseguirei escrever um texto “em um grande jornal” e cumprir minha promessa.
Mas, se servir de desconto, me tornei, sim, um jornalista. Consegui ser aprovado no vestibular de um dos melhores cursos de Jornalismo do Brasil: o da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E fui eu quem criei este site, com programação e tudo. Então, pelo menos a parte do “escrever na minha coluna”, eu consegui cumprir.
O problema é que eu descobri que passar em um vestibular concorrido não diz muito sobre como será o futuro profissional de alguém. Entramos na universidade achando que somos os melhores, mas logo descobri que eu era apenas um entre muitos bons. E, por mais que eu também tenha sido um aluno dedicado na faculdade, isso não foi suficiente para eu me tornar um “grande jornalista” e ser colunista em um grande veículo.
Descobri que conseguir identificar se um texto é da primeira ou segunda fase do Romantismo não é tão importante para uma vaga de emprego. Vale mais ser uma pessoa comunicativa, articulada e bem-relacionada. Soft skills, no estrangeirismo empresarial. Infelizmente, eu não consegui aprender isso nem nas suas aulas, nem nas dos demais professores. Mas não te culpo: nosso sistema de ensino, geralmente, foca apenas na etapa mais próxima, que é o vestibular.
Mas, sabe? Em parte, também foi minha escolha não ser um grande jornalista. Quando olhei para os sacrifícios que teria que fazer — focar na carreira em vez da vida pessoal, mudar para uma metrópole como São Paulo, abrir mão da qualidade de vida —, eu virei para mim mesmo e pensei: “Sério que era isso que eu sonhei a vida toda?”.
Então, “aquele garoto que queria mudar o mundo” por meio do Jornalismo, agora “assiste a tudo em cima do muro”, e vende suas ideias por um holerite decente. Ele resolveu pular para o outro lado da mesa e hoje trabalha com… (veja só a ironia do destino)… marketing!
Mas, pensando bem, o fato de eu não ter focado no Jornalismo talvez tenha sido até bom. Afinal, faz uma década que nem é mais preciso ter diploma para atuar na área. E de alguns anos para cá, basta ter uma câmera na mão para informar milhões de pessoas usando as redes sociais. E se antes eu me orgulhava de pelo menos ter um bom texto, com o ChatGPT essa vantagem competitiva virou commodity. Tanto é que muitos colegas jornalistas hoje estão migrando para o Marketing.
Ter tirado 10 na prova sobre Modernismo não me deu um único emprego. E tampouco me lembro da última vez em que usei uma mesóclise. Mas, pelo menos, depois de superar diversos livros de Machado de Assis, hoje consigo ler um contrato cheio de juridiquês e concluir: “Tá, eu acho que entendi tudo. Nem é tão difícil…”.
O que você e outros professores me incentivaram a aprender ajudou a abrir minha cabeça. Isso contribuiu para que eu não fosse um profissional e cidadão tapado, incapaz de olhar um palmo além de seu cabresto. Despertaram em mim o senso crítico e a habilidade de entender um pouco mais o ser humano. E hoje consigo escrever textos com o mínimo de abstração, coerência e coesão — algo que, por incrível que pareça, às vezes faz falta no mundo corporativo.
Então, hoje penso que, no fim, aquela prova era apenas uma metáfora de tudo o que viria: que, às vezes, a gente precisa abrir mão do sucesso no curto prazo e focar no que é importante para o futuro. Futuro esse que, às vezes, até já trilhamos, só não sabemos ainda.
Obrigado por tudo!
P.S.: O mais engraçado dissa história é que, mesmo sem ter lido o livro, respondi baseado no que tinha escutado em aula e tirei uma nota razoável naquela prova. Mas omiti na história a parte que eu já tinha passado de ano na matéria 🤓
Diogo Honorato tabalha com comunicação e marketing há 17 anos, tendo exercido cargos de liderança e gestão de projetos. É especializado em marketing digital, data analytics e planejamento de marketing. Além da gradução pela UFSC, é pós-graduado pela FGV. Atua unindo o marketing com tecnologia e gestão. Site: diogohonorato.com.br
